Cafézim

 Tem gente que acha que café é só café. Uma bebida quente, amarga, feita às pressas antes de sair de casa. Mas quem gosta de café sabe que não é bem assim.

Café é ritual. É o barulho da água fervendo cedo, quando a casa ainda está em silêncio. É o cheiro que invade a cozinha e parece acordar até as partes da gente que ainda querem continuar dormindo.

Tem café de pressa, tomado em pé, quase sem sentir o gosto. Tem café de conversa longa, daqueles que esfriam na xícara porque o assunto ficou mais interessante do que a bebida. Tem café de reencontro, café de despedida, café de entrevista de emprego, de primeiro encontro, de domingo à tarde e de segunda-feira difícil.

Quase toda fase da vida cabe em uma xícara.

Curioso como ninguém chama alguém para “tomar água” ou “beber um refrigerante”. O convite quase sempre é café. Porque, no fundo, café nunca foi só sobre a bebida. É sobre pausa. Sobre presença. Sobre dividir o tempo com alguém.

Talvez seja por isso que o cheiro de café tenha algo de memória. Ele lembra avós, cozinhas antigas, padarias cheias, plantões cansativos, madrugadas de estudo, conversas que mudaram tudo e outras que não mudaram nada — mas ficaram.

O café não resolve a vida de ninguém. Não paga boleto, não cura coração partido, não faz problema desaparecer. Mas existe uma honestidade bonita em sentar por alguns minutos, segurar uma xícara quente e fingir, nem que seja por pouco tempo, que a vida está sob controle. ☕

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